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Quem mora em Goiânia em 2017 ainda lembra do medo. A chuva atrasou, o reservatório baixou, e o noticiário começou a falar em rodízio de água na capital. Para uma família com criança pequena, idoso em casa e máquina de lavar trabalhando todo dia, ouvir “falta d’água” é ouvir pesadelo. Naquele ano, o pior não aconteceu. E não aconteceu por causa de uma decisão tomada quinze anos antes, em 2002, com a primeira pedra de uma obra chamada Sistema Produtor Mauro Borges.

Garantir água numa cidade que cresce não é problema simples. Goiânia saltou de cerca de 1 milhão de habitantes no início dos anos 2000 para mais de 1,5 milhão na década seguinte, com a região metropolitana toda passando dos 2,5 milhões. Sem nova captação, nova estação de tratamento e nova rede de distribuição, a torneira seca. Foi para evitar que a torneira secasse em algum momento entre 2010 e 2040 que o sistema foi projetado e executado.

O que é o Sistema Produtor Mauro Borges

O Sistema Produtor Mauro Borges é o maior complexo de abastecimento de água da Região Centro-Oeste do Brasil. Localizado na região norte de Goiânia, no Jardim Guanabara, foi construído pela Saneago em três etapas, entre 2002 e 2017. Reúne três estruturas integradas: a Barragem Doutor Henrique Santillo (também chamada Barragem do Ribeirão João Leite), a Estação Elevatória de Água Bruta e a Estação de Tratamento de Água Governador Mauro Borges.

O nome do complexo homenageia o ex-governador goiano Mauro Borges Teixeira, falecido em 2014. A ETA, considerada uma das mais modernas da América Latina, é o coração do sistema. Recebe a água bruta da barragem, faz o tratamento completo (decantação, filtragem, cloração, controle de qualidade) e entrega água potável pronta para distribuição. O complexo todo tem capacidade para reservar 40 milhões de litros de água tratada.

Quanto custou o Sistema Produtor Mauro Borges

O investimento total foi de aproximadamente R$ 1 bilhão. A composição da fonte de recursos combinou três entradas: o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que entrou como financiador internacional; o Governo Federal, que aportou recursos via contrapartida; e o Governo de Goiás, por meio da Saneago, que executou diretamente a obra e completou o orçamento.

A divisão por etapas ajuda a entender o porte do empreendimento. A primeira fase, iniciada em 2002 e concluída em 2010, foi a construção da Barragem do Ribeirão João Leite, com investimento estimado em R$ 560 milhões corrigidos. A segunda etapa, entre 2010 e 2016, envolveu a Estação Elevatória de Água Bruta, as adutoras e parte da rede de distribuição. A terceira etapa, concluída em setembro de 2017, foi a ETA Governador Mauro Borges, que completou o complexo.

Quantas pessoas o Sistema Mauro Borges abastece

O complexo foi projetado para abastecer Goiânia e Aparecida de Goiânia até o ano de 2040, com previsão de atendimento a 3 milhões de habitantes nessa data. A capacidade de produção atual chega a 4 mil litros de água tratada por segundo, com possibilidade de expansão para 8 mil litros por segundo nas próximas décadas. A obra foi pensada com folga estrutural para crescer junto com a cidade.

Mais de 90 bairros de Goiânia passaram a ser abastecidos pela água do sistema logo após a inauguração da ETA. Cidades vizinhas como Trindade, Goianira, Aragoiânia e a própria Aparecida de Goiânia também ganharam reforço de abastecimento por meio das adutoras integradas. O alcance vai além da fronteira da capital. É infraestrutura de toda a Grande Goiânia.

Por que o Sistema Mauro Borges foi necessário

Antes do complexo, Goiânia dependia praticamente do Sistema Meia Ponte, captação histórica do Rio Meia Ponte, que abastecia a cidade desde a fundação. O Meia Ponte, porém, é um rio que sofre com a poluição urbana, com a degradação do entorno e com a variação de vazão na época da seca. Em anos de estiagem prolongada, o nível baixava o suficiente para gerar risco real de desabastecimento.

A solução técnica foi diversificar a fonte. Em vez de depender de um rio que estava sendo cada vez mais pressionado, criar uma segunda captação em outra bacia. O Ribeirão João Leite, afluente do próprio Meia Ponte mas com nascente preservada e bacia menos urbanizada, oferecia a alternativa. A barragem construída ali se transformou em reserva estratégica. A cidade passou a ter duas fontes de água em vez de uma, com redundância para tempos de seca.

Essa lógica de redundância é a mesma que aviões usam com motores e que hospitais usam com geradores de energia. Você não opera com uma fonte só quando o serviço é vital. Operar Goiânia com apenas o Meia Ponte era apostar numa loteria que, mais cedo ou mais tarde, ia falhar. O Sistema Mauro Borges acabou com essa loteria.

 

“Se nós não tivéssemos feito esse planejamento, Goiânia, com certeza, iria padecer de falta de água.”

Marconi Perillo, na inauguração da ETA Governador Mauro Borges, setembro de 2017

 

A engenharia da obra

Do ponto de vista técnico, o Sistema Mauro Borges é resultado de engenharia complexa, com vários trechos articulados. A barragem represa água do Ribeirão João Leite, criando um lago artificial que serve como reserva. A Estação Elevatória de Água Bruta puxa essa água por bombas potentes e a empurra por uma adutora de dois quilômetros até a ETA. Lá, a água passa pelo tratamento completo. Depois, sai por outra adutora de oito quilômetros até a Estação de Tratamento de Água, de onde é distribuída para Campinas e demais bairros da capital.

A construção exigiu desapropriação de áreas no entorno da barragem, recuperação ambiental do trecho do ribeirão, instalação de estações de monitoramento de qualidade da água e treinamento de equipe técnica especializada. Não foi obra de pedreiro com colher. Foi obra de hidrólogo, engenheiro sanitário, geólogo, biólogo, técnico em tratamento de efluentes. O conjunto envolveu centenas de profissionais qualificados, com participação direta de servidores da Saneago e contratação de empresas especializadas em saneamento de larga escala.

O legado para Goiânia e para o saneamento brasileiro

O Sistema Mauro Borges deixou três legados concretos para Goiás. O primeiro é a segurança hídrica da Grande Goiânia até pelo menos 2040, com folga para expansão posterior. Não é pouco. Há capitais brasileiras maiores que ainda não resolveram o próprio abastecimento, e que enfrentam crises de água em ciclos de poucos anos. Goiânia resolveu o seu por décadas.

O segundo legado é a comprovação de que é possível executar obra estrutural de saneamento com financiamento misto (estado, União, banco internacional), respeitando cronograma técnico e entregando resultado final. O BID, ao final da obra, citou o caso como exemplo positivo de execução em estudos próprios sobre saneamento na América Latina. Esse tipo de reconhecimento internacional vale muito quando o estado precisa atrair novos recursos para outras obras.

O terceiro legado é menos visível, mas talvez o mais importante. A obra ensinou a estrutura técnica da Saneago a operar projeto de grande porte. Engenheiros que antes só faziam pequenas adutoras passaram a entender estações de tratamento complexas. Esse aprendizado fica na casa, na cultura organizacional. Não vai embora quando muda o governo. É patrimônio invisível que pode ser usado nas próximas grandes obras.

Por que o nome Mauro Borges

O complexo recebeu o nome do ex-governador goiano Mauro Borges Teixeira, falecido em 2014. A homenagem não foi protocolar. Mauro Borges é uma das figuras políticas mais respeitadas da história de Goiás, lembrado pela coragem de modernizar o estado nos anos 1960, pela criação de instituições importantes como a Universidade Federal de Goiás (UFG) e pela resistência ao regime militar de 1964, que o destituiu do cargo de governador eleito.

Dar o nome dele ao maior complexo de abastecimento de água da região Centro-Oeste foi escolha simbólica. Une dois momentos da história goiana, separados por meio século, sob a mesma ideia: construir patrimônio público duradouro que serve gerações futuras. A barragem que represa o Ribeirão João Leite também homenageia outro nome importante. O ex-secretário Henrique Santillo, médico e político que liderou a saúde pública goiana durante décadas.

O que o Sistema Mauro Borges representa para Goiás

O Sistema Produtor Mauro Borges é um caso raro de planejamento público de longo prazo executado até o fim. Começou em 2002, atravessou mandatos de governadores diferentes, e foi entregue em 2017. Quem assistiu à inauguração viu uma cidade que tinha resolvido, por décadas, um dos problemas mais difíceis que qualquer prefeito ou governador pode enfrentar. Falta de água não tem como ser tratada com discurso. Só com obra. E essa obra está lá.

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