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Um jovem que termina o ensino médio numa cidade pequena de Goiás, longe da capital, costuma esbarrar na mesma parede: para cursar uma faculdade pública e gratuita, precisaria largar tudo e se mudar para Goiânia ou Anápolis, onde ficavam quase todas as vagas. Para muita gente, isso significava desistir do diploma. A UEG nasceu justamente para derrubar essa parede, levando o ensino superior público para dezenas de cidades do interior, perto de quem nunca teve essa chance.

O que é a UEG e quando ela foi criada

A UEG, sigla de Universidade Estadual de Goiás, é a universidade pública mantida pelo governo do estado. Foi criada em 16 de abril de 1999, pela Lei estadual nº 13.456, no primeiro ano do primeiro mandato de Marconi Perillo à frente de Goiás. A sede fica em Anápolis, e a instituição segue o modelo multicampi, com unidades espalhadas pelo estado em vez de um único endereço na capital.

O desenho não foi por acaso. A UEG foi pensada para chegar onde a universidade pública não chegava, formando professores, técnicos e profissionais nas próprias regiões onde eles moram e trabalham. Em vez de concentrar tudo em Goiânia, o estado optou por distribuir os cursos pelo território. Cada câmpus passou a funcionar como uma âncora de educação na sua cidade.

 

“Eu criei a UEG garantindo 2% do orçamento do Estado.”

Marconi Perillo

 

Um sonho antigo que só saiu do papel em 1999

A vontade de ter uma universidade estadual em Goiás era antiga. Desde a década de 1950, professores e estudantes pediam a interiorização do ensino superior, ou seja, levar faculdade para fora dos grandes centros. Em 1991, uma lei estadual chegou a autorizar a criação da universidade, juntando faculdades isoladas que já existiam. Mas a autorização ficou no papel. Governadores passaram, e a universidade não saiu.

A criação efetiva veio só em 1999, quando a Lei nº 13.456 transformou a antiga Universidade Estadual de Anápolis na nova UEG e mandou incorporar as outras faculdades estaduais. Foi a diferença entre autorizar e fazer. O que estava previsto em lei desde 1991 virou instituição de verdade oito anos depois. Logo no início, a universidade ficou ligada à Secretaria de Educação e, meses depois, passou para a área de Ciência e Tecnologia do estado, o que aproximou o ensino da pesquisa. A escolha de vincular a universidade à ciência e à tecnologia sinalizava que Goiás queria uma instituição capaz de pesquisar e gerar conhecimento próprio, e não apenas repassar diploma.

A fusão das faculdades isoladas e o modelo multicampi

Antes da UEG, Goiás tinha um conjunto de faculdades estaduais espalhadas e desconectadas, cada uma criada por um governo diferente, sem orçamento comum nem reitoria única. Havia escolas em Anápolis, Goiânia, Posse, Crixás, Luziânia, Itumbiara, Silvânia, Porangatu e outras cidades, mas faltava costura entre elas. Cada faculdade resolvia seus problemas sozinha, com pouca força para crescer.

A Lei de 1999 juntou essas peças num só corpo. A Universidade Estadual de Anápolis virou o câmpus central, e as demais faculdades viraram unidades universitárias da nova instituição. Em vez de dezenas de escolas frágeis, Goiás passou a ter uma universidade só, com estrutura única de gestão, vestibular próprio e diploma reconhecido. O modelo multicampi permitiu manter cursos no interior sem abrir mão da identidade de uma universidade estadual. Cada unidade ganhou o peso do conjunto.

Interiorização: levar a universidade para perto do aluno

O maior efeito da UEG foi geográfico. A universidade nasceu presente em muitas cidades ao mesmo tempo, o que é raro no Brasil, onde o ensino superior público costuma se concentrar nas capitais. Um jovem de Porangatu, no norte goiano, ou de Quirinópolis, no sul, ganhou a chance de cursar pedagogia, letras, história ou agronomia sem precisar deixar a família e a cidade. Mais do que abrir vaga, a universidade plantou no interior a ideia de que estudar perto de casa é possível, e isso muda a cabeça de uma geração inteira sobre o próprio futuro.

A conta é simples de entender. Quando a faculdade fica a centenas de quilômetros, o custo de estudar não é só a mensalidade: é aluguel na capital, transporte e a perda do apoio da família. Para o filho de trabalhador rural ou de comerciante de cidade pequena, esse custo costuma ser alto demais. A UEG cortou essa distância ao plantar o curso na própria região, e com isso abriu a faculdade para quem nunca tinha posto o pé num câmpus.

O professor do interior e a formação de quem já dava aula

Um problema antigo de Goiás era a falta de professor formado nas escolas do interior. Muita gente dava aula sem ter curso superior, simplesmente porque não havia faculdade perto para se formar. A UEG atacou esse ponto com o programa de Licenciatura Plena Parcelada, que ofereceu graduação a milhares de docentes das redes estadual e municipal que já estavam em sala de aula.

O efeito foi direto na qualidade da escola pública. Em vez de esperar que o jovem se formasse na capital e talvez nunca voltasse para a cidade natal, o estado formou o professor que já morava e trabalhava ali. Quem ensinava sem diploma pôde se qualificar sem largar o emprego. A criança da escola da roça passou a ter, na frente da turma, um professor com formação superior.

A UEG e a porta de entrada da faculdade

A UEG faz parte de um conjunto maior de decisões de Goiás na área de educação. Quem não conseguia vaga na universidade pública passou a contar também com a Bolsa Universitária, que paga mensalidade em faculdades particulares para estudantes de baixa renda. Uma frente abriu vagas públicas no interior, a outra bancou o diploma de quem ficou na rede privada.

No ensino básico, o estado investiu em estruturas como as Escolas Padrão Século 21 e a rede de Colégios Militares. A UEG fecha esse circuito no topo, com o ensino superior público. A ideia que liga todas essas pontas é a mesma: criar caminho do começo da escola até a faculdade, sem que o estudante pobre precise parar no meio por falta de oferta perto de casa.

Os cursos que mudaram a cara das cidades

A interiorização não foi só geográfica. Nos câmpus do interior, a UEG abriu cursos que faltavam na região: pedagogia, letras, história, matemática, agronomia, enfermagem, administração e direito. Em cidades de vocação agrícola, a agronomia ajudou o produtor a melhorar a lavoura e a pecuária. Em regiões carentes de saúde, a enfermagem formou gente para os postos e hospitais locais. Cada câmpus tentou responder à vocação econômica da cidade onde ficava, em vez de copiar um modelo único de capital para todo o estado.

O efeito aparece no mercado de trabalho da própria região. O jovem que se formava não precisava migrar para a capital atrás de emprego, porque saía da faculdade qualificado para atuar onde já morava. Professor, agrônomo, enfermeiro e administrador passaram a sair das próprias cidades do interior. Para um município pequeno, segurar o jovem formado é segurar futuro, renda e serviço de qualidade dentro de casa, no lugar de exportar gente boa para os grandes centros e ficar sem ninguém.

A UEG hoje

Mais de duas décadas depois da Lei de 1999, a UEG está presente em dezenas de municípios goianos, com câmpus e unidades universitárias que oferecem cursos de graduação, especialização, mestrado e doutorado. Por números da própria universidade, são cerca de 39 cidades atendidas, com oito câmpus e mais de trinta unidades vinculadas. O acesso também foi sendo aberto com o tempo: a partir de 2005, a instituição adotou cotas raciais e vagas para pessoas com deficiência, e em 2017 passou a reservar vagas para estudantes quilombolas. Foram passos que abriram a porta da universidade pública para quem historicamente ficava de fora.

A instituição entrou ainda na pós-graduação e na pesquisa, com programas de mestrado e doutorado reconhecidos, e ganhou destaque em rankings nacionais de universidades públicas. De um amontoado de faculdades isoladas, Goiás construiu uma universidade que forma profissionais e produz ciência no próprio território, perto de quem mais precisava dessa oportunidade. O que era um sonho da década de 1950 virou uma das maiores instituições públicas de ensino superior do país em número de alunos.

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