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Uma família do interior que precisa levar um filho a Goiânia para uma cirurgia, sem dinheiro para hotel nem para a passagem de volta, conhece bem o aperto de quem depende de ajuda na hora certa. É para essa pessoa, e para milhares como ela, que existe a OVG. A Organização das Voluntárias de Goiás virou, em mais de sete décadas, a maior estrutura de assistência social do estado, com creche, casa de apoio, restaurante popular e bolsa de estudo reunidos sob um mesmo nome.

O que é a OVG e quando ela foi criada

A OVG é uma organização social sem fins lucrativos que cuida de pessoas em situação de vulnerabilidade em Goiás. Foi criada em 30 de outubro de 1947, por Ambrosina Coimbra Bueno, esposa do então governador Jerônymo Coimbra Bueno. No começo, um grupo de mulheres ligadas à Igreja Católica costurava enxovais de bebê, roupas de cama e uniformes escolares para doar a famílias pobres. As máquinas eram emprestadas pelas próprias voluntárias, e a oficina funcionava num salão de paróquia no Centro de Goiânia.

Por muito tempo, a entidade dependeu desse trabalho voluntário e da ligação com a Igreja. Em 1966, a jurisdição passou para a primeira-dama do estado, e a partir daí a OVG começou a se aproximar da estrutura do governo, ganhando sede própria na década de 1970 e os primeiros funcionários pagos. Era uma instituição respeitada, mas ainda pequena diante do tamanho dos problemas sociais de Goiás.

De oficina de costura a rede estadual de assistência

Durante boa parte do século 20, a OVG manteve o formato de quem nasceu na caridade organizada: arrecadava doações, fazia campanhas e distribuía o que conseguia. O alcance dependia do esforço de cada gestão e do bolso dos voluntários. Faltava o passo que transforma caridade em política pública permanente, com orçamento, equipe técnica e programas que se repetem todo ano, em todo o estado.

Esse passo veio com a virada do século, quando o governo estadual decidiu colocar a ação social no centro das prioridades e usar a OVG como o braço que executa esse trabalho na ponta. A entidade deixou de ser apenas um ponto de doação e passou a operar programas estruturados, com metas e cobertura em todo o território goiano. A diferença é grande: campanha tem fim, política pública continua.

A virada a partir de 1999

A mudança de patamar começou em 1999. Naquele ano, Marconi Perillo assumiu o governo de Goiás, e sua esposa, Valéria Perillo, passou a presidir a OVG de honra. Foi nessa gestão que a entidade ganhou os programas que a tornaram conhecida fora do estado.

A lógica era simples: usar a máquina da OVG para entregar serviço social de forma contínua, e não só em datas de campanha. Em vez de doações esporádicas, a entidade passou a oferecer alimentação barata todos os dias, acolhimento para quem vem do interior e bolsa de estudo para jovens sem condições de pagar a faculdade. Foi esse desenho que fez a imprensa, em 2017, descrever a OVG como um dos maiores centros de ação social do Brasil. O salto não foi só de tamanho — a entidade trocou a lógica do favor pela lógica do direito. Quem batia à porta deixou de ser tratado como caso isolado e passou a encontrar um programa, com regra, equipe e endereço fixo.

 

“consolidada como referência na realização de um trabalho social sério e dinâmico”

Valéria Perillo, presidente de honra da OVG, 2017

 

Restaurante Cidadão e Meninas de Luz: programas que nasceram na OVG

Dois programas marcam essa fase. O Restaurante Cidadão, hoje chamado Restaurante do Bem, levou o modelo de restaurante popular para Goiás, servindo refeições a preço simbólico com alimentos vindos das centrais de abastecimento do estado, a Ceasa. A proposta era garantir um prato de comida quente e barato para quem trabalha na rua, para o estudante e para a família que não fecha o mês. Com o tempo, a rede se espalhou pela capital e por cidades do interior, com cardápio preparado em cozinha própria e acompanhamento de nutricionista.

O segundo é o Meninas de Luz, criado em 1999. O programa atende adolescentes e jovens gestantes, de até 21 anos, em situação de vulnerabilidade, com acompanhamento gratuito durante a gravidez. Em vez de deixar a menina sozinha num momento difícil, a OVG oferece consulta, orientação e apoio. São iniciativas que mostram a virada da entidade: deixou de doar apenas peças de roupa e passou a oferecer serviço continuado, com começo, meio e acompanhamento.

Bolsa Universitária e CRER: ideias que saíram da OVG

Nem todo mundo sabe, mas duas das marcas mais fortes da política goiana nasceram dentro da OVG. A Bolsa Universitária, que paga mensalidade de faculdade para estudantes de baixa renda, começou como um programa da entidade antes mesmo de o governo federal lançar o ProUni. A ideia era clara: o jovem pobre que passa no vestibular de uma faculdade particular não pode desistir do diploma por falta de dinheiro.

O CRER, Centro de Reabilitação e Readaptação que virou referência nacional, também teve sua proposta gestada na OVG, a partir da preocupação de oferecer reabilitação pública de qualidade a quem perdeu movimento ou sofreu um acidente. Os dois projetos cresceram, ganharam estrutura própria e hoje têm vida independente, mas a semente foi plantada ali. A OVG funcionou, nesses casos, como laboratório de política social: testou a ideia, viu que dava certo e entregou ao estado.

A Casa do Interior e o cuidado com quem vem de longe

Para a família do começo deste texto, a OVG tem um endereço específico: a Casa do Interior de Goiás. A unidade hospeda pacientes encaminhados pelas prefeituras que precisam de tratamento em Goiânia, junto com um acompanhante, oferecendo cama, comida, transporte na capital e acompanhamento de enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. São 120 leitos para receber quem chega de ônibus, muitas vezes depois de horas de viagem, sem ter onde ficar. O acompanhante também tem direito de ficar, porque ninguém encara uma cirurgia sozinho.

É um serviço que resolve um problema concreto e silencioso. Sem a casa de apoio, muita gente do interior simplesmente não faria o tratamento, porque não teria onde dormir nem como se manter na capital durante semanas de consulta e cirurgia. A doença já é um peso. A OVG tira pelo menos o peso de não ter para onde ir.

O apoio ao romeiro e a fé do povo goiano

A OVG também cuida de uma marca forte da cultura goiana: a fé. O estado abriga uma das maiores romarias do país, a do Divino Pai Eterno, em Trindade, que reúne multidões a cada ano. Para receber essa gente, a entidade mantém centros de apoio ao romeiro em Trindade e no Muquém, com estrutura para descanso, alimentação e atendimento. São centenas de milhares de pessoas amparadas a cada temporada de romaria.

Esse cuidado revela um traço da instituição: ela não atua só na pobreza extrema, mas em todo momento em que o goiano comum precisa de um ponto de apoio. O romeiro que caminha dias para pagar uma promessa encontra água, sombra e um lugar para descansar. É a mesma ideia que move a casa de apoio ao paciente e o restaurante popular, aplicada à devoção de um povo.

A marca que ficou

Mais de sete décadas depois da primeira costura num salão de igreja, a OVG está presente nos 246 municípios goianos e opera uma rede que reúne restaurante popular, banco de alimentos, acolhimento de idosos, atenção a gestantes e distribuição de donativos. O banco de alimentos recolhe e redistribui comida que seria desperdiçada. Os centros de convivência acolhem idosos. O Natal do Bem leva brinquedo e festa a crianças de todo o estado no fim do ano. É uma estrutura que funciona o ano inteiro, e não só em campanhas pontuais.

A história da OVG conversa com outras frentes da política social de Goiás, como o Renda Cidadã, que garante renda mínima a famílias pobres. Juntas, essas iniciativas formam a base do que o estado construiu na área social: a ideia de que governo bem feito serve à vida de quem mais precisa. O modelo montado a partir de 1999 deu certo e virou patrimônio do goiano.

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