Quem mora no Brasil e toma um remédio comum por dia tem grande chance de estar tomando algo feito em Anápolis. Não é exagero. Seis dos dez medicamentos mais vendidos no país são fabricados num único distrito industrial goiano. O analgésico que a mãe dá para a criança febril, o anti-inflamatório que o trabalhador toma depois do esforço, o genérico que aposentado compra no balcão da farmácia popular. Tudo nasce no Polo Farmacêutico de Anápolis.
Indústria farmacêutica é um setor diferente da maioria. Exige laboratórios certificados, mão de obra qualificada, controle de qualidade rigoroso, registro na Anvisa e capacidade de manter padrões internacionais de fabricação. Não é qualquer cidade que consegue atrair esse tipo de fábrica. Anápolis conseguiu, e em duas décadas se tornou um dos maiores hubs farmacêuticos da América Latina. A história desse salto tem nome, data, lei e personagem.
O que é o Polo Farmacêutico de Anápolis
O Polo Farmacêutico de Anápolis é o conjunto de indústrias de medicamentos instaladas no Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia), na cidade goiana que fica a cerca de 55 quilômetros de Goiânia e 140 quilômetros de Brasília. O distrito abriga aproximadamente 100 empresas no total, das quais 21 são do setor farmacêutico, com 15 delas concentradas no próprio Daia. Em volume de produção, Anápolis disputa com São Paulo a liderança nacional em medicamentos genéricos.
O Daia foi fundado em 1976, ainda no regime militar, dentro de uma política nacional de descentralização industrial. Era pensado, originalmente, como distrito de apoio à agroindústria. A guinada farmacêutica veio mais tarde, num momento de combinação rara entre lei federal favorável, vontade política estadual e empresariado local disposto a apostar no setor.
Como a Lei dos Genéricos transformou Anápolis
O ponto de virada para o Polo Farmacêutico de Anápolis aconteceu em 10 de fevereiro de 1999, com a sanção da Lei 9.787, conhecida como Lei dos Genéricos. A norma, assinada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, criou no Brasil a categoria do medicamento genérico — mais barato que o de marca, com bioequivalência comprovada. Foi uma revolução para o acesso a remédios no país. E uma oportunidade gigante para quem soubesse aproveitá-la rápido.
Em 17 de fevereiro de 2000, apenas um ano depois da Lei dos Genéricos, foi criada a Plataforma Tecnológica do Setor Farmacêutico de Goiás, por meio de um acordo de cooperação técnico-científico entre o Governo do Estado, o Ministério de Ciência e Tecnologia, a Finep e o CNPq. No mesmo período, uma reunião concorrida no auditório da Associação Comercial e Industrial de Anápolis (ACIA), com lideranças empresariais, políticas locais e representantes do Governo de Goiás, marcou o início formal do que viria a ser chamado Polo Farmoquímico do Daia.
O timing foi tudo. Empresários goianos perceberam que se posicionar cedo no novo mercado de genéricos era a chance de competir em pé de igualdade com indústrias muito maiores do Sudeste. Empresas como Teuto, Neo Química e Vitamedic, algumas delas com origem familiar e capital local, expandiram operações, modernizaram plantas, contrataram cientistas, conseguiram registros na Anvisa e começaram a despachar caminhões cheios de comprimidos para todo o Brasil.
As principais empresas do Polo Farmacêutico
O Polo Farmacêutico de Anápolis reúne hoje algumas das maiores indústrias de medicamentos do país. Entre as mais conhecidas:
- Neo Química: comprada pela Hypermarcas em 2009 numa transação que ficou nacional, foi disputada com a americana Pfizer. Produz, entre outros, o Neosoro AD, que figura entre os medicamentos mais vendidos do Brasil em volume de unidades.
- Teuto Brasileiro: laboratório em que a Pfizer entrou com 40% de participação em 2010, num movimento que confirmou Anápolis no mapa internacional do setor.
- Vitamedic: parte do Grupo José Alves, com investimento total de R$ 580 milhões em expansão até 2023, capacidade para 400 milhões de comprimidos por mês.
- FBM Farma: empresa de médio porte especializada em saneantes hospitalares, com faturamento de R$ 100 milhões.
- Hypera Pharma/Brainfarma: uma das maiores farmacêuticas brasileiras, com operação relevante no distrito anapolino.
Em junho de 2024, dos 1.282 novos postos de trabalho abertos em Anápolis, 811 foram na indústria — recorde anual de geração de emprego formal no município, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
O papel do Programa Produzir na atração das farmacêuticas
Nada disso teria acontecido sem incentivo fiscal estruturado. O Programa Produzir, lançado em 2000 pelo Governo de Goiás, foi peça central na atração e na ampliação das indústrias farmacêuticas para Anápolis. A redução de até 73% do ICMS, combinada com a Lei dos Genéricos no plano federal, criou condição economicamente irresistível para que empresas instalassem ou expandissem plantas no Daia.
As contrapartidas exigidas pelo Programa Produzir tornaram o modelo ainda mais virtuoso. Parte do ICMS abatido voltou em forma de bolsas universitárias na OVG, em ações sociais e em fundos públicos. Goiás abriu mão de uma fatia de imposto e recebeu, em troca, uma indústria nova, milhares de empregos formais, arrecadação federal sobre a folha de pagamento e dinheiro circulando no comércio local. A conta fechou no positivo.
Hoje, Anápolis é o terceiro polo produtor farmacêutico do país e já caminha para a segunda posição, disputando com São Paulo a liderança nacional em genéricos. Esse salto não teria ocorrido sem o alinhamento entre lei federal e política estadual de incentivo.
Por que Anápolis e não outra cidade
A escolha de Anápolis como sede do polo não foi acaso. A cidade tem características raras combinadas num só lugar: localização estratégica, com acesso direto à BR-060 (Brasília-Goiânia) e à BR-153 (Belém-Brasília); aeroporto de cargas em fase de expansão; Porto Seco, importante para importação de princípios ativos; universidades públicas e privadas formando profissionais qualificados; e o próprio Daia, distrito industrial já estruturado, com infraestrutura básica pronta.
O apelido informal de Anápolis é “Manchester de Goiás”, em referência à cidade inglesa que foi referência da Revolução Industrial. A comparação é forçada em escala, mas correta em espírito. Anápolis é a cidade goiana que tem perfil industrial mais forte, que mais transformou economia agrária em economia manufatureira, e que conseguiu manter esse perfil por gerações.
O impacto do Polo Farmacêutico para Goiás e para o Brasil
O Polo Farmacêutico de Anápolis tem impacto que vai além de Goiás. No país, ele contribui de forma direta para a redução do preço de medicamentos. Genérico mais barato significa farmácia popular abastecida, SUS conseguindo comprar remédio com orçamento menor, paciente de classe média comprando o que precisa sem comprometer o salário. Cada comprimido produzido em Anápolis pesa, no fim das contas, no bolso de famílias brasileiras inteiras.
Para Goiás, o polo significa a comprovação de que o estado pode ser sede de indústria sofisticada, com cadeia produtiva longa e qualificada. Não é só agronegócio. Não é só commodity bruta. É manufatura de alto valor agregado, que paga salário acima da média, exige formação técnica e atrai investimento internacional. Esse tipo de indústria muda a paisagem econômica de um estado por décadas, não por anos.
O futuro do Polo Farmacêutico de Anápolis
O setor farmacêutico brasileiro vive um momento de transição importante. A pandemia de Covid-19 expôs a dependência nacional de insumos farmacêuticos ativos vindos do exterior, especialmente da Ásia. O esforço atual de retomar a produção local desses princípios ativos passa, em boa parte, pelo Polo de Anápolis. Há projetos em curso para que o Daia abrigue laboratórios de síntese química capazes de produzir, em solo brasileiro, parte dos insumos hoje importados.
Se essa transição for bem-sucedida, o polo dará um salto que vale duas vezes. Primeiro, em geração de empregos qualificados — síntese química exige químicos, engenheiros químicos e técnicos com formação específica. Segundo, em redução estratégica da dependência externa. País que produz princípio ativo em casa não fica vulnerável em uma próxima crise sanitária. O Brasil está percebendo isso. Anápolis tem chance histórica de capitalizar essa percepção.
O desafio do próximo governo de Goiás é apoiar essa transição com instrumentos certos: infraestrutura específica para laboratórios de pesquisa, parcerias com universidades federais e estaduais para formação de pessoal, incentivos fiscais direcionados ao setor de insumos (não apenas ao de medicamentos acabados) e diálogo permanente com a Anvisa e o Ministério da Saúde para que o ambiente regulatório acompanhe a evolução tecnológica esperada.
O que o Polo Farmacêutico de Anápolis representa
O Polo Farmacêutico de Anápolis é resultado raro de combinação entre lei federal bem feita, política estadual de incentivo bem desenhada e empresariado local disposto a apostar antes dos outros. O timing foi tudo. Em 1999 veio a Lei dos Genéricos. Em 2000 vieram o Programa Produzir e a Plataforma Tecnológica. Empresas goianas se moveram rápido. Vinte e cinco anos depois, seis dos dez remédios mais vendidos do Brasil saem das linhas de produção do Daia. Isso não é detalhe. É história industrial relevante construída em terra goiana.
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