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Quem dirige pela BR-050 saindo do Triângulo Mineiro em direção a Brasília passa, em algum momento, por uma cidade média que pode parecer comum à primeira vista. Não é. Catalão, no sudeste de Goiás, tem renda per capita maior do que a do município de São Paulo. Tem indústria pesada, mineração de classe mundial e está entre as cinco cidades mais ricas do estado. Esse perfil incomum se explica por uma combinação rara que se materializou no Polo Industrial de Catalão.

Cidades industriais não nascem do nada. Precisam de matéria-prima na vizinhança, de infraestrutura logística que justifique o investimento da empresa, de mão de obra disponível e treinável, de poder público local que entenda o jogo da atração industrial. Catalão tem tudo isso. A combinação foi sendo construída por décadas, com momentos de aceleração mais fortes em períodos específicos — especialmente nos anos 2000 e 2010, quando a política estadual de incentivos fiscais acelerou o processo.

O que é o Polo Industrial de Catalão

O Polo Industrial de Catalão é o conjunto de indústrias e operações de mineração instaladas na cidade de Catalão, no sudeste de Goiás. O núcleo do polo é o Distrito Mínero-Industrial de Catalão (DIMIC), administrado pela Codego (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás). O DIMIC abriga grandes empresas de renome nacional e internacional, do ramo automobilístico, máquinas agrícolas, alimentos, construção civil, transportadoras e mineração.

A localização da cidade é parte central da equação. Catalão fica a aproximadamente 100 quilômetros de Uberlândia (MG), 260 quilômetros de Goiânia e em rota direta para Brasília, Belo Horizonte e São Paulo. Para uma empresa que precisa distribuir mercadoria para o Centro-Oeste, para o Sudeste e até para o Nordeste, é difícil achar localização melhor dentro de Goiás — perto do agronegócio do Centro-Oeste e do mercado consumidor do Sudeste ao mesmo tempo.

As principais empresas instaladas em Catalão

O perfil empresarial de Catalão impressiona pela diversidade e pela escala. Algumas das principais empresas instaladas no município:

  • Mitsubishi: fábrica de automóveis com capacidade para produzir 27 mil veículos por ano. Foi a primeira montadora a se instalar no Centro-Oeste do Brasil. Emprega 2.700 funcionários diretos, gera aproximadamente 2.700 empregos indiretos, e investiu R$ 1,2 bilhão em ampliação que incluiu fábrica de motores, nova área de pintura e modernização das linhas de montagem.
  • Suzuki: produzida na mesma fábrica HPE que monta os Mitsubishi, dentro de uma operação conjunta que diversifica o portfólio da unidade.
  • John Deere: fabricante de máquinas agrícolas, especialmente colhedoras de cana-de-açúcar e pulverizadores. Tem entre 660 e 900 funcionários e protocolo de intenções recente para investimento adicional de R$ 700 milhões em expansão.
  • Vale: complexo de mineração de fosfato com área de 2.600 hectares, 1.500 funcionários e capacidade para 1 milhão de toneladas de rocha fosfática por ano.
  • Anglo American (via Copebrás): mineração de fosfato com 1.300 funcionários, dos quais 900 em operações de extração. Produz 1,3 milhão de toneladas de concentrado de fosfato anualmente.
  • CMOC Group Limited: grupo chinês que opera a mineração de nióbio e fosfato. Catalão e Araxá (MG) figuram entre os maiores produtores de terras raras do mundo.
  • DuPont Pioneer: unidade de beneficiamento de sementes com investimento de US$ 62 milhões, capacidade para processar 2 milhões de sacas por ano.

A mineração que tornou Catalão estratégica

Por baixo do solo de Catalão estão jazidas de minerais raros e valiosos. Fosfato, usado em larga escala na produção de fertilizantes — matéria-prima fundamental do agronegócio brasileiro. Nióbio, mineral estratégico usado em ligas de aço de alta resistência e em superligas para a indústria aeroespacial. Terras raras, conjunto de elementos químicos que ganharam protagonismo nas últimas décadas por seu uso em baterias, ímãs e eletrônicos. Esse subsolo é parte do que explica a riqueza atual da cidade.

A combinação entre fosfato extraído localmente e fertilizante produzido na própria cidade gerou efeito multiplicador raro. A agroindústria do Centro-Oeste brasileiro, que consome fertilizante em grande volume, passou a contar com fornecedor próximo. Para o produtor rural goiano, mineiro ou mato-grossense, isso significa redução de custo logístico, prazo de entrega menor e acesso a insumo essencial sem depender de importação cara.

O fosfato concentrado produzido em Catalão segue por ferrovia até o porto de Paranaguá (PR) ou é escoado por minerodutos. Parte da produção atende o mercado interno, parte é exportada. Mineração de longa duração como essa, quando bem regulada, é geradora consistente de royalties e arrecadação para o município e para o estado.

O que os números mostram

O PIB de Catalão cresceu 478% em dez anos até 2010, segundo dados do IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração). O PIB per capita da cidade chegou a R$ 45,8 mil em 2010, superando o de São Paulo (R$ 39,5 mil) no mesmo período. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) em 2021 foi de 0,766, um dos melhores do país.

Esses números não são detalhe estatístico. Significam que uma cidade goiana de pouco mais de 100 mil habitantes conseguiu, em duas décadas, criar economia tão produtiva quanto a média da metrópole brasileira mais rica. Sem precisar ser metrópole. Mantendo o porte interior, com qualidade de vida que cidade grande não oferece, e com perfil industrial que muita capital estadual brasileira não tem. É um caso digno de estudo.

 

“Catalão é uma das maiores rendas per capita do Brasil, a maior de Goiás. É referência hoje em todas as áreas, na indústria, na agropecuária, na mineração. Enfim, é uma cidade pujante.”

Marconi Perillo

 

Como o Polo Industrial de Catalão foi construído

A formação do polo combinou três fatores. Primeiro, o reconhecimento técnico do potencial mineral do município, com mapeamentos geológicos que começaram ainda no século 20. Segundo, a política estadual de incentivos fiscais, especialmente o Programa Produzir lançado em 2000, que ofereceu redução de ICMS para indústrias dispostas a investir em Goiás. Terceiro, a parceria contínua entre estado e prefeitura, com investimentos em infraestrutura local que tornaram viável a chegada de grandes empresas.

Durante os governos Marconi Perillo, Catalão recebeu obras estruturantes que reforçaram a atratividade do polo: pavimentação asfáltica nas vias internas do DIMIC, acessos viários adequados ao tráfego pesado de caminhões mineiros e investimento em logística regional, integrando o município à malha rodoviária estadual em melhor padrão. A combinação entre incentivo fiscal e obra pública foi o que fez Catalão sair do quase nada industrial dos anos 1990 para o polo consolidado dos anos 2010.

Há também o papel da Codego na gestão e atração de novas empresas para o DIMIC. A capacidade técnica de manter um distrito industrial funcionando com qualidade — com regularização cadastral em dia, com regras claras para implantação de novas plantas — foi parte invisível mas essencial dessa história. Sem gestor competente do distrito, nenhum incentivo fiscal funciona.

Os desafios para manter o polo competitivo

Polos industriais não se sustentam sozinhos. Precisam de atualização constante, infraestrutura modernizada, mão de obra qualificada e ambiente regulatório previsível. Recentemente, a saída anunciada e depois revista da Mitsubishi do município gerou apreensão na população local. O episódio mostrou como cidade que depende de poucas grandes empresas fica vulnerável a decisões corporativas que escapam ao controle do poder público.

A resposta certa não é se acomodar. É diversificar. Atrair novos setores além dos já consolidados. Investir em qualificação profissional contínua. Manter o diálogo aberto com as empresas instaladas. E garantir que a infraestrutura local (estradas, energia, saneamento, conectividade digital) acompanhe a sofisticação esperada por indústrias modernas. Esse é o desafio do próximo ciclo do polo, que precisa do mesmo tipo de gestão estadual paciente que construiu o ciclo anterior.

O que Catalão ensina para o resto de Goiás

O caso de Catalão é estudado em escolas de administração pública e em cursos de desenvolvimento regional brasileiros. Há lições claras que outras cidades goianas podem absorver. Primeiro, identificar o ativo natural ou logístico que diferencia o município no mapa. Em Catalão, foram as jazidas minerais combinadas com a localização privilegiada. Outras cidades têm outros ativos: Pirenópolis tem turismo, Rio Verde tem agro, Anápolis tem logística e farmacêutica. Cada vocação pede política específica.

Segundo, articular o tripé prefeitura, governo estadual e setor privado de forma permanente. Catalão funciona porque os três lados conversam. Prefeito entende a importância da indústria local. Estado oferece o incentivo via Codego e Produzir. Empresa investe sabendo que terá interlocutor público confiável. Esse arranjo de governança é o que mantém o polo de pé. Quando um dos três lados falha, o sistema treme.

Terceiro, investir antes em qualificação profissional. Catalão tem universidades, escolas técnicas e parcerias com Senai e Senac que formam trabalhador para a indústria local. Empresa internacional não se instala onde não consegue achar engenheiro, técnico de manutenção, operador de máquina. A educação profissional é insumo, tanto quanto energia elétrica e estrada. Sem isso, o polo não cresce.

O legado do Polo Industrial de Catalão

O Polo Industrial de Catalão é a prova de que cidade média no interior do Brasil pode, sim, virar referência industrial e mineral de classe mundial. Não foi mágica. Foi soma de potencial geológico, política pública bem desenhada, incentivo fiscal estruturado e gestão municipal e estadual atenta. Catalão hoje é fonte de orgulho goiano e prova prática de que o estado sabe fazer indústria. Manter esse legado e dar o próximo salto é missão do próximo governo de Goiás.

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