Quem já levou um parente acidentado para uma emergência de hospital público sabe que cada minuto conta. A vaga existe ou não existe? O médico vai chegar? O leito de UTI vai ser liberado? Para milhares de famílias goianas, nas últimas duas décadas, a diferença entre desespero e esperança em momentos assim teve nome e endereço. Hugol e CRER. Dois hospitais que mudaram a saúde pública do estado.
Construir hospital não é fazer obra qualquer. Não é colocar pedra sobre pedra e pintar a fachada. É montar uma máquina de salvar vidas, que exige planejamento técnico, equipamento caro, mão de obra especializada e modelo de gestão que sustente a operação no longo prazo.
Goiás resolveu esse problema, em dois momentos críticos, com duas escolhas que viraram referência nacional em estratégia de saúde pública.
O que é o Hugol
O Hugol, Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira, é o maior hospital público das regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. Localizado em Goiânia, na região noroeste da capital, foi inaugurado para atender urgências, emergências e traumas de alta complexidade. Tem centenas de leitos, dezenas de salas de cirurgia, UTIs especializadas, helipontos para resgate, e uma equipe que opera em regime de plantão integral.
Antes do Hugol, urgências graves em Goiás dependiam de uma rede menor, com poucos leitos para vítimas de acidente, queimadura severa, infarto e politraumatismo. Em rodovia, os pacientes mais graves muitas vezes chegavam tarde demais. O Hugol redesenhou esse mapa. Hoje, recebe pacientes vindos de todo o estado e até de estados vizinhos, Tocantins, sul do Pará e Mato Grosso. A capacidade técnica concentra o atendimento de quem precisa do recurso mais sofisticado.
O que é o CRER
O CRER, Centro de Reabilitação e Readaptação Doutor Henrique Santillo, é um hospital especializado em reabilitação física e neurológica, com sede em Goiânia. Atende crianças e adultos com sequelas de acidentes, AVC, doenças degenerativas, deficiências congênitas e amputações. Oferece desde fisioterapia até cirurgias ortopédicas complexas, fabricação de próteses e órteses, e acompanhamento multidisciplinar de longo prazo.
O CRER é uma das instituições brasileiras mais reconhecidas na área. Recebe pacientes do Brasil inteiro, faz pesquisa clínica, forma profissionais, e mantém parceria com universidades. Para um goiano que precisa de prótese de perna, de fisioterapia intensiva pós-AVC ou de cirurgia de coluna especializada, o CRER costuma ser o caminho de quem não teria como pagar tratamento desse nível na rede privada.
Como o Hugol e o CRER foram construídos
Os dois hospitais foram resultado de uma estratégia de saúde pública desenvolvida ao longo dos governos Marconi Perillo. A lógica era expandir a rede hospitalar estadual em três frentes simultâneas: hospitais regionais para atender a interiorização, hospitais de urgência para concentrar trauma e alta complexidade, e centros especializados para temas específicos de saúde.
O Hugol entra na frente dos hospitais de urgência. O CRER entra na dos centros especializados. Ao lado deles, a rede ganhou ainda o Huapa (Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia) e o Huana (Hospital de Urgências da Região Norte), além de uma rede de hospitais regionais distribuídos por cidades-polo do interior. O conjunto multiplicou por várias vezes a capacidade de atendimento do estado.
O modelo de gestão por Organizações Sociais
Um detalhe técnico essencial da história desses hospitais é o modelo de gestão escolhido. Goiás operou parte da rede por meio de Organizações Sociais (OSs), entidades sem fins lucrativos qualificadas pelo Estado, que recebem contrato de gestão com metas claras e prestação de contas obrigatória. O modelo permite agilidade na contratação de pessoal especializado e flexibilidade na compra de insumos médicos, sem abrir mão de fiscalização.
O modelo de OS em saúde despertou debate público, dentro e fora de Goiás. Há defensores entusiastas e críticos legítimos. Mas durante os governos Marconi, equipes técnicas de pelo menos 22 estados brasileiros visitaram Goiás para conhecer o funcionamento da rede sob esse modelo. Vários replicaram. Outros adaptaram. O caso goiano virou material de referência em escolas de administração pública.
A rede também recebeu acreditação pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), processo independente que avalia padrões de qualidade hospitalar. Acreditação não é selo decorativo. É uma auditoria que mede protocolo, segurança do paciente, gestão de medicamentos, controle de infecção. Conseguir ONA exige hospital que funcione com seriedade.
O que o Hugol e o CRER representam hoje
Quando o goiano comum se acidenta na BR-153 e é levado de helicóptero para Goiânia, o destino dele costuma ser o Hugol. Quando uma criança nasce com deficiência motora num município do interior e precisa de tratamento contínuo, o caminho dela passa pelo CRER. Esses hospitais não são abstração. São endereços que aparecem todo dia em prontuários, em conversas de família, em decisões médicas. Eles funcionam.
A pergunta de hoje é se eles continuam funcionando no nível que sempre funcionaram. A saúde pública goiana, depois de 2019, passou a enfrentar críticas crescentes. O Conselho Estadual de Saúde reprovou as contas de saúde de 2020, 2021, 2022 e 2023, por irregularidades na prestação de contas e na gestão da rede. Em quatro anos consecutivos, esse selo de aprovação foi negado. Para o paciente, isso pode parecer detalhe técnico. Mas é o sinal de que algo na engrenagem não está girando como antes.
Hospital grande não se mantém sozinho. Precisa de manutenção, equipamento renovado, equipe completa, insumo no estoque. Quem construiu sabe quanto trabalho deu para chegar até ali. Quem cuida sabe quanto trabalho dá para manter.
O que esses hospitais significam para Goiás
O Hugol e o CRER são marcos da saúde pública brasileira que nasceram em Goiás e seguem funcionando para milhares de famílias todo dia. São prova de que política pública bem desenhada cria patrimônio que atravessa governos. Mas o patrimônio mal cuidado se deteriora, e nenhum hospital sobrevive a uma década sem manutenção. Cuidar do que foi construído é tão importante quanto construir.
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