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Uma mãe que mora num bairro da periferia em Goiânia, com filho de doze anos, conhece a fila de matrícula do Colégio Militar de cor. Ela acorda cedo, leva o histórico, leva o boletim, leva uma cópia da carteira de vacinação, e fica horas esperando para tentar uma vaga. A demanda é gigante. As famílias confiam no modelo. E há motivo para isso. Disciplina, professores presentes, infraestrutura cuidada e desempenho consistente no Enem.

Os Colégios Militares deixaram, nos últimos quinze anos, de ser exceção raríssima na rede pública para se tornar uma política de Estado em Goiás. A expansão da rede foi uma das transformações educacionais mais visíveis do estado nesse período. E ela tem uma cronologia clara, com começo, meio e continuidade ainda em curso.

O que são os Colégios Militares na rede pública de Goiás

Os Colégios Militares da rede estadual de Goiás são unidades de ensino fundamental e médio que combinam o currículo regular da Seduc (Secretaria de Estado da Educação) com uma rotina escolar gerida pela Polícia Militar ou pelo Corpo de Bombeiros Militar. Os professores das matérias acadêmicas são civis, concursados ou contratados pela rede estadual. A disciplina, a organização do dia a dia, a fila de entrada e o uniforme seguem padrão militar.

É importante separar uma coisa da outra. Esses colégios não são escolas militares no sentido das forças armadas. Não formam soldados nem oficiais. São escolas civis com gestão disciplinar militarizada. O aluno aprende português, matemática, história e biologia normalmente, com o mesmo currículo da rede estadual. A diferença está no ambiente: uniforme, horário rígido, hierarquia clara, expectativa explícita de comportamento.

Quantos Colégios Militares existem em Goiás hoje

Em 2011, no início do terceiro mandato de Marconi Perillo como governador, Goiás contava com seis Colégios Militares na rede estadual. Em 2018, ano de saída do governo, esse número havia chegado a 71 unidades — eram 58 já em pleno funcionamento e outras 13 prontas para implantação. A multiplicação por mais de dez vezes em sete anos transformou Goiás no estado com a maior rede de Colégios Militares públicos do Brasil.

A expansão alcançou a capital, região metropolitana e interior. Cidades pequenas como Mineiros, São Miguel do Araguaia, Goianésia e Iporá ganharam unidades próprias. A capilaridade foi pensada para permitir que famílias do interior tivessem acesso ao modelo sem precisar mandar o filho para Goiânia.

Por que os Colégios Militares são tão disputados pelas famílias

A disputa por vagas nos Colégios Militares se explica por uma combinação de fatores. Há a percepção, confirmada por dados do Enem e do Saeb, de que o desempenho médio dessas escolas é superior ao da rede estadual comum. Famílias querem para os filhos a melhor educação que conseguem acessar, e o Colégio Militar é, para a maioria, a melhor opção pública disponível.

Há também a expectativa de disciplina. Pais que sentem dificuldade em estabelecer rotina em casa veem na escola militar um ambiente que reforça hábitos: chegar no horário, estudar com regularidade, respeitar o professor, manter o material em ordem. Isso responde a uma angústia muito comum, especialmente em famílias de classe média baixa e periferia.

E há a infraestrutura. Os Colégios Militares foram, em geral, contemplados com investimentos diretos: laboratório, biblioteca, quadra coberta, sala de informática, refeitório. Em escolas onde o restante da rede estadual ainda enfrentava falta de cadeira em alguns casos, essa diferença material é evidente.

O resultado em rankings e indicadores

Os Colégios Militares de Goiás ajudaram a puxar o desempenho do estado nos rankings nacionais de educação. Em 2013, Goiás chegou ao primeiro lugar do Brasil no IDEB do ensino médio na rede pública, com nota 3,8. Foi a primeira vez que um estado fora do eixo Sul-Sudeste alcançou essa posição. O salto teve várias causas: investimento em professor, padronização das Escolas Padrão Século 21, programas de avaliação interna. O crescimento da rede militar é um dos fatores mais lembrados pelos especialistas.

Mais recentemente, a rede estadual de Goiás voltou a ficar entre as melhores do país no IDEB do ensino médio. Os Colégios Militares seguem como ponta-de-lança dessa rede, com unidades alcançando notas individuais que superam a média da rede federal de ensino técnico. Segundo o IDEB, Goiás ocupa o primeiro lugar em proficiência em Língua Portuguesa e Matemática nas duas fases do Ensino Fundamental.

Críticas e o debate sobre o modelo

O modelo dos Colégios Militares não é unânime. Há críticas legítimas de educadores, pesquisadores e parte da comunidade acadêmica. Os pontos mais frequentes do debate envolvem o uso de disciplina militar com crianças e adolescentes, o risco de seleção implícita de alunos (já que famílias mais organizadas tendem a se candidatar), e a comparação imediata com escolas regulares, que perdem recursos ou alunos para a rede militar.

Esses são pontos sérios e merecem discussão pública informada. Defender a rede militar não significa achar que ela é a única solução para a educação pública goiana. Significa reconhecer que, no conjunto das alternativas disponíveis, ela tem entregado resultado mensurável e tem a aceitação das famílias atendidas. O caminho do estado é manter o que funciona e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade da rede regular, que atende a grande maioria dos estudantes goianos.

O que a expansão significa para Goiás

Os Colégios Militares em Goiás representam uma escolha educacional que mudou a paisagem da escola pública estadual. A expansão de seis para 71 unidades em sete anos é um número difícil de ignorar. Mais difícil ainda é ignorar as filas de matrícula que se formam todo ano. As famílias estão dizendo, com os próprios pés, o que querem para os filhos. Cabe ao próximo governo escutar e responder à altura.

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