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Quem mora numa cidade pequena de Goiás sabe o peso que uma estrada esburacada tem na vida real. A safra do produtor demora a chegar no comprador, o caminhão de leite quebra a suspensão na poeira, a ambulância que leva o doente para Goiânia faz duas horas a mais do que deveria fazer. Cada quilômetro de asfalto novo, nesses lugares, é dinheiro que volta para a economia local e tempo que volta para a vida das pessoas. Foi essa conta, multiplicada por 246 municípios, que justificou o Goiás na Frente.

Programas de investimento estadual geralmente são anunciados com pompa e terminam concentrados na capital. O desenho do Goiás na Frente partiu de outra ideia: espalhar obra por todo o estado, com modalidades específicas para infraestrutura, habitação, educação e repasse direto a prefeituras. A premissa era simples. Se o problema é o interior abandonado, a resposta tem que ser a interiorização do investimento.

O que foi o Goiás na Frente

O Goiás na Frente foi um programa estadual de investimentos lançado em 2016 pelo governo de Goiás, no quarto mandato de Marconi Perillo. Reuniu, num único pacote, cerca de R$ 6,1 bilhões em obras de infraestrutura, habitação, educação e parcerias com prefeituras municipais. As fontes de recursos combinavam Tesouro Estadual, repasses federais e investimentos privados em energia e saneamento.

A engenharia financeira do programa foi possível depois de um ajuste fiscal duro entre 2014 e 2017. Sem o corte de gastos correntes daquele período, o estado não teria fôlego para investir. O Goiás na Frente foi, na prática, o lado positivo de uma decisão impopular tomada anos antes. Quem cortou na hora certa pôde investir depois.

Quanto foi investido pelo Goiás na Frente

O programa tinha previsão total de R$ 6,1 bilhões, distribuídos da seguinte forma: R$ 5 bilhões em investimento direto do Tesouro Estadual em obras de infraestrutura social e econômica; R$ 1 bilhão em parceria com o governo federal; R$ 3 bilhões adicionais em investimentos privados em energia e saneamento (que se somavam ao valor original, dependendo da modalidade contabilizada).

Dentro desse total, R$ 600 milhões foram destinados a obras rodoviárias e aeródromos. R$ 500 milhões foram repassados diretamente às prefeituras por meio da modalidade Goiás na Frente Municípios. R$ 1 bilhão foi assegurado pela Caixa para a contratação de 30 mil unidades habitacionais. Cerca de R$ 17,2 milhões compraram 75 novos ônibus escolares para a zona rural do interior.

Quantas obras foram entregues e quantos municípios receberam recursos

Todos os 246 municípios de Goiás manifestaram interesse em participar do Goiás na Frente. A capital, Goiânia, teve o maior aporte individual, com R$ 35 milhões destinados à construção do ramal leste da Avenida Leste-Oeste, conforme pedido feito pelo então prefeito Iris Rezende. Nos demais municípios, os valores variaram conforme o porte da cidade e a natureza dos projetos apresentados.

Em janeiro de um único ano do programa, 38 obras foram inauguradas em 23 municípios goianos, num único rush de entregas. Em outro período, 31 municípios receberam 23 obras simultaneamente. Esses números pulverizados são parte da natureza do programa: em vez de poucos megaempreendimentos, muitas obras de porte médio espalhadas pelo estado.

As principais áreas de investimento

Rodovias. Mais de 1.500 quilômetros de novas estradas pavimentadas previstas até 2018, com investimento de R$ 600 milhões. Inclui obras como a GO-156 (Mundo Novo a Uirapuru), a duplicação da GO-020 (Bela Vista de Goiás a Piracanjuba, com R$ 150 milhões e seis novas pontes) e dezenas de outras intervenções em rodovias estaduais.

Habitação. 30 mil unidades habitacionais contratadas em parceria entre Estado, União e municípios. O governo federal entrou com R$ 1 bilhão da Caixa. O Estado completou pela Agehab. As prefeituras definiram e regularizaram os terrenos.

Educação. Construção e reforma de Escolas Padrão Século 21 em diversos municípios. Aquisição de 75 ônibus escolares para zona rural com R$ 17,2 milhões do Tesouro Estadual. Programa Caravana do Aprender e aulões do Enem Express Móvel.

Municípios. Modalidade direta de repasse a prefeituras, com R$ 500 milhões para obras locais escolhidas pelos próprios prefeitos, incluindo pavimentação urbana, praças, quadras esportivas, postos de saúde e equipamentos públicos.

Saúde. Investimentos em hospitais regionais, ampliação de leitos e equipamentos para a rede pública estadual, integrados ao plano de expansão da saúde dos governos Marconi.

Por que o Goiás na Frente espalhou obra por todo o estado

A capilaridade do programa não foi acidente. Foi escolha deliberada. Governos estaduais brasileiros tradicionalmente concentram investimento na capital e na região metropolitana, porque ali está a maior densidade populacional, a maior visibilidade midiática e o maior peso eleitoral. O custo dessa concentração é o atraso do interior: estradas degradadas, escolas precárias, postos de saúde fechados em cidades pequenas.

Goiás é um estado de muita cidade pequena. Dos 246 municípios, mais da metade tem menos de 10 mil habitantes. Atender só Goiânia significa atender talvez 20% da população e deixar os outros 80% sem resposta. O Goiás na Frente partiu da premissa contrária: cada município, mesmo o menor, deveria receber alguma obra do programa. A escala individual era pequena. A escala somada, transformadora.

 

“Independente do município e do partido que esteja à frente da administração, todos os 246 municípios de Goiás serão contemplados pelo Goiás na Frente.”

Portal da Alego, 2017

 

As parcerias com prefeituras

A modalidade Goiás na Frente Municípios foi uma das mais inovadoras do programa. Em vez de o governo estadual decidir centralmente onde investir, repassava R$ 500 milhões diretamente para as prefeituras, mediante convênio. Cada prefeito apresentava um projeto local, sujeito a análise técnica, e executava a obra com gestão própria.

Esse modelo tinha duas vantagens. A primeira: respeitava a autonomia municipal e o conhecimento local. Quem mora na cidade sabe melhor do que técnico de Goiânia onde a rua precisa de asfalto, onde a praça precisa de reforma, onde a quadra de esporte vai mudar a vida da meninada. A segunda: distribuía a execução política da obra. O prefeito ganhava o crédito local, o governo estadual ganhava o crédito sistêmico.

Na prática, a modalidade Municípios foi também uma resposta a uma queixa antiga das prefeituras goianas: a dificuldade crônica de acessar recursos estaduais. Antes do programa, prefeitos relatavam meses de espera para liberação de convênios, com prestações de contas burocráticas e contrapartidas que muitas cidades pequenas não conseguiam cumprir. O Goiás na Frente Municípios simplificou o caminho.

As críticas ao Goiás na Frente

Nenhum programa de investimento dessa magnitude escapa de críticas legítimas. As principais que foram feitas ao Goiás na Frente envolveram três pontos. O primeiro, o ritmo de execução de algumas obras, que ficou abaixo do anunciado, especialmente em rodovias de maior extensão. O segundo, a coincidência política do auge do programa com o período pré-eleitoral, o que abriu espaço para questionamentos sobre uso da máquina pública. O terceiro, o tamanho do endividamento estadual herdado ao final do mandato, que serviu de base para a oposição argumentar que o programa foi financiado com receita futura comprometida.

Essas críticas merecem registro e discussão pública. Defender o legado do Goiás na Frente não significa fingir que ele foi perfeito. Significa reconhecer que, com todos os limites de execução, ele entregou patrimônio físico verificável em Goiás inteiro. Asfalto, casa, escola, ônibus escolar, posto de saúde. Coisas que se contam, que se medem, que ainda estão lá.

O que o programa deixou de aprendizado

O Goiás na Frente deixou três lições úteis para qualquer próximo plano de investimento em Goiás. A primeira é que ajuste fiscal e programa de obras não são opostos. São complementares na ordem certa. Quem corta gasto corrente cria espaço para investimento estrutural. Quem inverte a ordem (gastar primeiro, cortar depois) entrega obra cara, juros altos e endividamento de longo prazo. A sequência importa.

A segunda lição é que o convênio direto com prefeitura, quando bem fiscalizado, funciona melhor do que execução centralizada para obra de pequeno porte. Pavimentação de rua, reforma de praça, construção de quadra esportiva — coisas que custam pouco se feitas localmente e custam caro se feitas por estrutura estadual longe do canteiro. O modelo Goiás na Frente Municípios mostrou esse caminho com R$ 500 milhões repassados.

A terceira lição é que um programa de investimento precisa de identidade visível. Quando o cidadão da cidade pequena reconhece a placa, sabe quem fez, sabe de onde veio o recurso, sente que faz parte de algo maior. Isso não é detalhe de marketing. É retorno político da política pública. Sem reconhecimento, a obra vira invisível, e a próxima eleição pune quem fez.

O que o Goiás na Frente prova sobre investimento público

O Goiás na Frente mostrou que dá para fazer investimento de larga escala em estado pequeno e em estado grande, em capital e em interior, em obra estrutural e em obra de bairro. A receita não tem mistério: ajuste fiscal antes para criar fôlego, planejamento técnico durante para evitar pulverização inútil e capilaridade na execução para que o eleitor de cidade pequena também sinta o investimento na pele. Quem fez sabe que essa é a única maneira de fazer crescer Goiás inteiro, não só a capital.

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