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Quem viveu em Goiás nos anos 1990 lembra de um estado que vivia da fronteira. Soja no sul, gado no centro, capital com algum comércio e serviço público concentrado em Goiânia. Quem precisava de emprego industrial ia para São Paulo. Quem queria estudar engenharia ia para Brasília ou Belo Horizonte. O PIB de Goiás naquele tempo era de cerca de R$ 17 bilhões, e o estado figurava entre os menores produtores industriais do país. Vinte anos depois, esse número multiplicou por mais de dez.

Crescimento econômico de estado não acontece por acaso. É soma de muita decisão tomada em sequência, com gente que ficou e gente que veio. O salto goiano tem uma história, e ela passa por escolhas administrativas concretas.

Os números do crescimento do PIB de Goiás

O PIB de Goiás saiu de aproximadamente R$ 17 bilhões em 1999 para cerca de R$ 200 bilhões em 2018. A trajetória completa pode ser conferida em séries oficiais do IBGE e do Instituto Mauro Borges (IMB), o órgão estadual de estatística. Os marcos mais relevantes do período:

  • 1999: cerca de R$ 17 bilhões. Goiás ainda figurava entre as economias estaduais médias do Brasil.
  • 2010: R$ 106,8 bilhões. O estado já havia passado pelo principal salto industrial.
  • 2018: cerca de R$ 195,7 bilhões. Goiás consolidado entre as dez maiores economias do país.
  • 2021: R$ 269,6 bilhões. Crescimento continuado, com recuperação pós-pandemia.
  • 2023: R$ 336,7 bilhões. Maior valor da história até então, segundo o IMB.

 

No período de 1999 a 2018, o crescimento médio anual do PIB goiano foi de 4,8%, acima da média nacional de 3,4% no mesmo intervalo. A diferença parece pequena no número solto, mas no acumulado de duas décadas representa diferença de patamar. Goiás cresceu mais rápido do que o Brasil em quase todos os anos do período, e isso explica boa parte da multiplicação por dez do PIB estadual.

Como Goiás deixou de ser só agrícola e virou economia diversificada

Em 1999, a economia goiana era dominada pelo agronegócio. Soja, milho, carne. O setor industrial era pequeno, concentrado em alimentos e bebidas, com pouca presença de manufatura de média e alta tecnologia. O setor de serviços crescia, mas estava muito centrado em comércio e administração pública.

A transformação ao longo das duas décadas seguintes veio em três frentes simultâneas. A primeira foi a atração de indústria. Goiás passou a oferecer incentivos fiscais bem desenhados (o programa Produzir é o exemplo mais conhecido) para atrair montadoras de automóveis, indústrias farmacêuticas, fábricas de alimentos processados e plantas de mineração. Hyundai, Suzuki, Honda, Caoa, Mitsubishi, John Deere e dezenas de outras empresas passaram a operar em território goiano.

A segunda frente foi a modernização do próprio agronegócio. Em vez de produzir apenas commodity bruta, Goiás passou a agregar valor. Frigoríficos cresceram, indústrias de processamento de carne se instalaram, fábricas de etanol e açúcar se modernizaram. A soja deixou de sair apenas em grão — passou a sair também como farelo, óleo e ração.

A terceira frente foi a expansão do setor de serviços, puxada pelo crescimento da renda média e pela urbanização. Comércio em escala, rede hospitalar privada, ensino superior privado, logística e transportes ganharam peso no PIB. Goiânia e Aparecida de Goiânia se consolidaram como polo regional de serviços para todo o Centro-Oeste.

O papel da reforma administrativa no crescimento

Atração de indústria não é só questão de incentivo fiscal. Empresa que decide investir num estado avalia infraestrutura, segurança jurídica, qualidade do serviço público, previsibilidade tributária e disponibilidade de mão de obra. Goiás trabalhou cada uma dessas frentes ao longo dos governos Marconi.

A reforma administrativa de 1999, desenvolvida em parceria com a FGV, criou agências executoras especializadas (Agetop para infraestrutura, Agehab para habitação, AGR para regulação) com lógica de gestão mais próxima da iniciativa privada. O Vapt Vupt mostrou ao empresário que o estado podia operar com agilidade. A modernização da Junta Comercial reduziu de meses para dias o tempo de abertura de empresa.

A política de incentivos fiscais foi calibrada por setor e por região do estado, para evitar concentração apenas em Goiânia. Cidades como Catalão, Rio Verde, Anápolis e Itumbiara receberam parques industriais que ainda hoje sustentam o emprego local. A interiorização do investimento foi escolha estratégica, não acaso. Quem fez planejamento sabia que crescimento desigual gera tensão social e demanda compensatória cara depois.

A combinação entre crescimento econômico e desigualdade reduzida

Crescer não basta. Crescimento pode acontecer e a maioria da população ficar fora do bolo. Em Goiás, a combinação foi diferente. O estado alcançou, ao final do período, a segunda menor desigualdade de renda entre as 27 unidades da federação, medida pelo coeficiente de Gini do IBGE. Crescer e distribuir aconteceram juntos.

O fator decisivo dessa combinação foi a manutenção de programas sociais de larga escala em paralelo ao crescimento econômico. Renda Cidadã, Bolsa Universitária, Cheque Moradia, programas de saúde pública e expansão da rede de Colégios Militares funcionaram como redistribuição estruturada. Mais do que assistência, eram pontes — da pobreza para o emprego formal, do ensino básico para o superior, da moradia precária para a casa decente.

O resultado é o tipo de número que se vê pouco. Estados que crescem rápido costumam piorar a distribuição de renda. Estados que melhoram a distribuição costumam crescer devagar. Goiás conseguiu, no período, fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Não foi mágica. Foi política pública sustentada por duas décadas.

Onde Goiás chegou e o que veio depois

Em 2018, Goiás era a 9ª maior economia do Brasil, com PIB próximo de R$ 200 bilhões, crescimento médio anual acima da média nacional, indústria diversificada, agro modernizado e serviços em expansão. O estado havia mudado de patamar de forma duradoura.

Depois de 2018, o crescimento continuou, mas em ritmo diferente e em outro contexto político. O PIB chegou a R$ 269,6 bilhões em 2021, R$ 336,7 bilhões em 2023 e R$ 377,1 bilhões em 2024. Goiás hoje segue entre as dez maiores economias estaduais do país. Bons números, sem dúvida, com méritos próprios do período recente.

A questão que fica para 2026 não é se Goiás cresceu ou não. Cresceu. A pergunta relevante é se o crescimento atual está sendo distribuído com o mesmo cuidado social do período anterior, se a arrecadação que aumentou está chegando à ponta na forma de serviço público de qualidade e se o estado mantém capacidade de planejamento estratégico de longo prazo. Essas três perguntas valem mais do que o número agregado do PIB.

O que o crescimento do PIB de Goiás ensina

O salto do PIB de Goiás de R$ 17 bi para R$ 200 bi entre 1999 e 2018 é um dos números mais difíceis de contestar na história recente do estado. Ele resume um projeto de desenvolvimento que combinou reforma administrativa, atração de indústria, modernização do agro, política social robusta e capilaridade do investimento público. Cada um desses pilares tem nome, tem programa, tem servidor que executou e tem empresário que apostou.

O próximo salto, se Goiás quiser dá-lo, terá que sustentar a mesma engenharia. Crescimento sem inclusão é frágil. Inclusão sem crescimento é insustentável. Saber combinar os dois é a credencial mais valiosa de quem já governou esse estado.

Experiência não envelhece, amadurece.

Goiás Pode Mais.