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O ginásio Goiânia Arena estava cheio quando Ana Claudia Silva Bispo segurou o cartão pela primeira vez. Mãe de duas meninas de 9 e 13 anos, moradora do Setor Universitário, em Goiânia, desempregada e em tratamento médico, ela descreveu o benefício como um alívio em meio às incertezas. “Veio num momento importante”, afirmou. O benefício chegou quando as despesas se acumulavam e a margem de escolha era pequena.

O cartão significava mais do que dinheiro. Representava autonomia.

A cena sintetiza o alcance do Renda Cidadã em Goiás, programa de transferência direta de renda criado em 1999, durante a primeira gestão de Marconi Perillo, para substituir a distribuição de cestas básicas por depósitos em cartão magnético. Ao longo de quase duas décadas, a iniciativa chegou a atender cerca de 120 mil famílias simultaneamente, com orçamento anual que, em determinados períodos, superou R$ 40 milhões.

O que começou como uma alternativa administrativa tornou-se um marco na política social goiana e referência no debate nacional sobre transferência de renda.

Entenda o Renda Cidadã em Goiás

No fim dos anos 1990, a assistência social em Goiás ainda estava baseada na entrega física de alimentos. O modelo da cesta básica exigia logística complexa, gerava alto custo operacional e dificultava o controle técnico dos critérios de concessão.

A proposta apresentada em 1999 rompeu com essa lógica. Em vez de alimentos distribuídos diretamente pelo poder público, as famílias passaram a receber recursos financeiros depositados mensalmente em cartão magnético. A decisão deslocou o foco da entrega de produtos para a autonomia do beneficiário.

A mudança trouxe dois efeitos imediatos. De um lado, devolveu às famílias o poder de escolha sobre suas necessidades mais urgentes. De outro, estimulou o comércio local, especialmente em bairros periféricos e municípios de pequeno porte, onde o depósito mensal representava circulação direta de renda.

Estrutura e critérios do Renda Cidadã

Com a reformulação consolidada pela Lei nº 19.319/2016, o programa ganhou contornos mais técnicos e sistematizados.

A elegibilidade passou a considerar renda familiar per capita de até um terço do salário mínimo, inscrição no Cadastro Único e residência comprovada em Goiás. A permanência no programa exigia frequência escolar mínima de 75% para dependentes entre 6 e 17 anos, além da atualização do calendário de vacinação e acompanhamento pré-natal para gestantes.

O benefício combinava um valor básico de R$ 100 com complementações vinculadas à saúde e à educação. O teto mensal por família podia chegar a R$ 180.

Em determinados períodos, os pagamentos mensais superaram R$ 10 milhões, segundo registros oficiais, evidenciando a dimensão financeira da política.

Modernização e controle do programa

A consolidação do Renda Cidadã em Goiás também passou pela modernização tecnológica.

Em 2016, o sistema foi reestruturado com cruzamento de dados com o Cadastro Único e utilização de indicadores de vulnerabilidade social. O objetivo era eliminar inconsistências, reduzir sobreposições de benefícios e ampliar a transparência.

A seleção automatizada permitiu mapeamento mais preciso das regiões com maior concentração de pobreza, assegurando presença nos 246 municípios goianos.

Impacto econômico e social

Mais do que aliviar despesas imediatas, o Renda Cidadã em Goiás alterou a relação entre Estado e beneficiário. A transferência regular de renda introduziu previsibilidade no orçamento das famílias, permitindo planejamento mínimo de consumo e redução da dependência de ações emergenciais.

A política também estabeleceu um contrato de corresponsabilidade. A manutenção do benefício estava vinculada ao cumprimento de condicionalidades na educação e na saúde, integrando a assistência a outros sistemas públicos. Essa exigência fortaleceu o vínculo das famílias com a escola e com a rede básica de atendimento.

Ao longo dos anos, o programa contribuiu para consolidar uma base de dados social estruturada no estado, ampliando a capacidade de mapeamento da vulnerabilidade. A organização dessas informações permitiu maior direcionamento de recursos e tornou a política social mais técnica e menos episódica.

O efeito não se restringiu ao valor depositado mensalmente. A iniciativa consolidou um modelo de proteção social contínua, com critérios definidos e acompanhamento permanente, reduzindo a informalidade que marcava práticas assistenciais anteriores.

Educação e mobilidade social

Ao condicionar o acesso ao benefício à permanência escolar, o programa passou a atuar sobre um dos principais vetores da reprodução da pobreza. A exigência de frequência mínima não apenas manteve crianças e adolescentes na escola, mas reforçou a articulação entre assistência social e política educacional.

No campo da saúde, o acompanhamento sistemático incorporou uma lógica preventiva à rede de proteção. A convergência entre transferência de renda, escolarização e qualificação profissional estruturou um mecanismo de intervenção que ultrapassava a mitigação imediata da carência e buscava produzir efeitos duradouros sobre mobilidade social.

Legado e continuidade do Renda Cidadã

O Renda Cidadã consolidou-se como uma das experiências pioneiras de transferência direta de renda no país e contribuiu para redefinir o modelo de proteção social em Goiás. Implantado no fim dos anos 1990, antecipou mecanismos que posteriormente seriam incorporados a políticas federais, como o uso do cartão magnético, o cadastro estruturado via rede bancária e as condicionalidades vinculadas à educação e à saúde.

Enquanto outros estados optaram por integrar completamente seus programas ao Plano Brasil Sem Miséria, Goiás manteve, em diferentes períodos, execução própria e paralela, preservando autonomia administrativa. Essa independência permitiu ajustes específicos nos critérios de prioridade, incluindo atendimento direcionado a idosos, pessoas com deficiência e portadores de doenças graves.

A priorização das mulheres como titulares do benefício também se consolidou como diretriz estruturante do modelo estadual, prática que mais tarde se tornou referência nas políticas federais de transferência de renda.

Após 2018, o programa passou por reestruturações administrativas, mas a lógica inaugurada permaneceu presente em iniciativas posteriores, como o Goiás Social, o Mães de Goiás e o Dignidade, que mantêm a transferência direta via cartão e a integração com o Cadastro Único.

Dados recentes do IBGE indicam que Goiás registra uma das menores taxas de pobreza de sua série histórica. Embora esses resultados venham de múltiplos fatores econômicos e de decisões de diferentes gestões, a institucionalização de uma política estruturada de transferência de renda marcou um divisor na organização da assistência social no estado.

Gestão Marconi: a estruturação da política social

Entre 1999 e 2018, o Renda Cidadã foi estruturado, ampliado e aperfeiçoado no âmbito da gestão de Marconi Perillo, consolidando uma política social baseada em critérios técnicos e alcance estadual. Em 2016, o orçamento anual girava em torno de R$ 40 milhões, sustentando uma rede que chegou a atender dezenas de milhares de famílias simultaneamente nos 246 municípios goianos. Mesmo após a criação do Bolsa Família, o programa manteve execução própria, com foco em públicos prioritários e ajustes adequados à realidade local. Ao transformar a assistência social em política estruturada e permanente, o estado demonstrou que planejamento, tecnologia e responsabilidade fiscal podem caminhar juntos. A experiência deixou um aprendizado claro: quando há organização e visão de longo prazo, Goiás pode mais.

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